Discurso do Deputado André Franco Montoro
por ocasião da
Entrega da Medalha de Honra ao Mérito a Chiara Lubich
pela USP no dia 30 de abril de 1998.
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Magnífico reitor da Universidade de São Paulo, Chiara Lubich que nos honra com a sua
presença nesta Universidade, demais autoridades presentes, minhas senhoras e meus
senhores. Falo na dupla qualidade de professor e incubido desta saudação pelo reitor da
Universidade e em nome do Congresso Nacional que representa todo o povo brasileiro e que
vem trazer à Chiara Lubich a palavra de homenagem, admiração e respeito.
Quando vemos o Movimento dos Focolares, que é sua obra, presente em cento e noventa e
oito países dos cinco continentes, com o apoio de milhões de pessoas em todo o mundo,
quando tomamos conhecimento das homenagens que lhe são prestadas por comunidades de toda
a multiplicidade de ordens religiosas, católicos e ortodoxos, igrejas protestantes,
sinagogas judaicas, mesquitas muçulmanas, monges budistas; quando vemos as inúmeras
homenagens e condecorações que lhe são conferidas por Universidades de todas as partes
do mundo e hoje, dentro deste conjunto, a Universidade de São Paulo, que é a maior
Universidade do Brasil; quando vemos que a UNESCO, Organização Mundial, destinada a
Ciência, a Educação e a Cultura, conferir-lhe o prêmio de Educação para a Paz, nós
tomamos consciência de que estamos diante de um Movimento histórico. Esta é, sem
dúvida, a marca deste movimento.
Alguém definiu ou previu que o século XX seria o século das guerras, e realmente duas
grandes guerras marcaram este século que termina. A guerra de 14 correspondeu ao fim de
uma época histórica. Aquela perspectiva de um mundo em que a ciência e a tecnologia
sozinhas, numa pretensa neutralidade, iriam trazer felicidade ao mundo, quando Paris
realizou a exposição universal para mostrar à humanidade o progresso das grandes
invenções, da eletricidade, do automóvel, do avião, aquela Belle Époque.
Veio a guerra e foi a surpresa, a decepção, o desespero. E os efeitos da guerra que não
se limitam a um conflito armado, mas tem consequências culturais e sociais da maior
importância, quais foram os efeitos, os primeiros resultados no plano da cultura da
Primeira Guerra Mundial?
Foi o Dadaísmo, que desprezava tudo para condenar aquela burguesia falsa, aquela
mentalidade e aquela história de uma Belle Époque, fora de valores.
Foi o Surrealismo, querendo mostrar que tudo o que se apresentava era hipocrisia e era
preciso procurar o real, nos aspectos interiores, no Surrealismo. O próprio
Existencialismo, a angústia existencial, a náusea de Sartre, o ser e o nada. Tudo isso
foi o resultado negativo, pessimista daquela guerra.
E diante daquele vazio de valores, daquela negatividade que dominava, foi crescendo o
movimento totalitário que acabou deflagrando a Segunda Guerra Mundial. Mas os efeitos da
Segunda Guerra que foram terríveis do ponto de vista das consequências materiais, trouxe
uma consequência não negativa como a Primeira Guerra, mas positiva.
A humanidade tomou consciência de que aquela neutralidade, aquela ausência de valores
daquela pretensa civilização burguesa, precisava afirmar alguns valores. E surgiu então
o movimento, em primeiro lugar da consciência universal, para no tribunal de Nuremberg
condenar aqueles que violavam princípios que não apenas não estavam nas leis. O
positivismo jurídico sofreu aí o seu primeiro golpe. Mas era preciso afirmar valores. E
a consciência da humanidade fez com que fosse aprovada pela assembléia das Nações
Unidas a Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana. Escritos foram afirmados e
houve uma reação em todos os setores. No plano do Direito, aqueles que afirmavam que a
lei da autoridade constituída era a única regra para fundamentar o Direito, tiveram que
se render à evidência deque aquelas ordens dos chefes autoritários de Hitler, por
exemplo, ele era a autoridade. Mas o poder da autoridade tinha limites em valores e veio a
afirmação, hoje reconhecida por todos, de que no fundo do Direito há o valor
fundamental da Justiça.
No campo da ciência aquela pretensão de que a ciência e a técnica resolveriam o mundo,
com a explosão de Hiroshima e Nagasaki, com o holocausto, com aquela série de
deformações, provocou da parte dos cientistas, dos técnicos, daqueles que faziam as
armas um choque dramático.
É Einstein, nas suas reflexões sobre a maturidade, que vem lembrar o drama dos
cientistas e dizer: "Os fatos estão a nos mostrar que só a ciência, só a técnica
não resolvem os problemas da humanidade. A ciência nos diz o que é, mas é a moral, é
a religião que diz o que deve ser. São os valores que têm que ser afirmados". E na
educação - diz Einstein ainda - "não basta a transmissão de conhecimentos, ou das
habilidades técnicas, é preciso - frase de Einstein - que a juventude seja formada de
tal forma que os princípios éticos-fundamentais de justiça, de solidariedade, de
respeito à pessoa humana sejam para o jovem como o ar que ele respira".
Todos esses ensinamentos marcam esse aspecto positivo decorrente da Segunda Guerra. Mas
não basta ensinar. Os antigos diziam: verba volen, scripta manen - as palavras
voam, os escritos permanecem, mas são os exemplos que arrastam. E é nesse plano dos
exemplos, dentro desta linha universal, sede de justiça e de paz, que surge com uma
importância histórica para o mundo moderno o Movimento iniciado por Chiara Lubich.
Em plena Segunda Guerra, entre as ruínas e a destruição, Chiara Lubich abraça a sua
causa e inicia um Movimento que seria profético, que se transforma nesta grande
movimentação que o mundo respeita e que hoje São Paulo, através da sua Universidade,
vem proclamar como exemplo, como lembrava há pouco o nosso reitor, principalmente para as
novas gerações, esta idéia de universalidade.
Contra o totalitarismo que esmaga a pessoa humana, que considera o Estado a única
realidade, é de Mussolini a frase: "Nada sem o Estado, nada contra o Estado, nada
fora o Estado", a esse totalitarismo, Chiara vem lembrar a eminente dignidade da
pessoa humana. A pessoa humana é inviolável, tem valores pessoais que devem ser
reconhecidos.
Contra o nacionalismo estreito dos que declararam a guerra, ela vem lembrar que a Pátria
é uma dimensão menor, que somos todos membros de uma grande família humana. Este
Movimento ecumênico, universal que ela prega, que ela realiza e que os Focolares dão
como exemplo ao mundo é desse entendimento amplo, de todas as nações, de todas as
religiões.
E contra a violência e o ódio, ela vem nos ensinar que o amor é a vida do mundo. É
esta fraternidade, esta é a grande lição! Eu quero dizer, Chiara Lubich, que São
Paulo, neste momento ao lhe homenagear quer lembrar algumas passagens históricas ligadas
à nossa cidade e ao nosso continente.
Durante a guerra o arcebispo de São Paulo, o jovem bispo vindo de Uberaba, D. José
Gaspar de Affonseca e Silva, colocou como lema do seu governo, da sua administração em
São Paulo, a frase evangélica: "Ut omnes unum sint" - "Que todos sejam
um". É o lema dos Focolares, é o lema do grande arcebispo de São Paulo.
Outro exemplo do nosso continente: quando começaram a cair as ditaduras militares da
América, umas das últimas foi a ditadura do Chile, e no momento em que tomava posse o
presidente Patrício Aylwin, um grande cristão, certamente discípulo e amigo dos
Focolares, o ato mais importante da sua posse, foi o ato ecumênico na porta da catedral,
e lá estava no centro o cardeal do Chile, à sua direita um rabino judeu, à sua esquerda
um pastor protestante, de outro lado um sacerdote muçulmano, e de outro lado, eram cinco,
um monge budista. De mãos dadas, davam graças à Deus pela volta do Chile à democracia
e assumiam o compromisso de cada um, dentro da sua comunidade, trabalhar pela efetivação
do grande valor que é comum a todas as religiões. Se somos filhos de Deus, somos
irmãos.
Esta noção de fraternidade, esta noção de solidariedade, está na base do Movimento
dos Focolares, cuja inspiradora, autora e presidente, recebe neste momento a homenagem, é
a grande mola capaz de salvar o mundo.
Contra o egoísmo e a violência, é a solidariedade. Contra os braços cruzados da
indiferença burguesa, contra os movimentos de violência dos agitadores da violência, do
ódio e da lutas de classes ou de nações há um terceiro gesto: são os braços abertos
da fraternidade. São estes braços abertos que recebem neste momento Chiara Lubich na
Universidade de São Paulo.
É um sonho o trabalho e a proposta dos Focolares?
Eu me permito citar mais um grande brasileiro, latino-americano, um bispo modelo para o
mundo, Dom Helder Câmara, ele diz: "Quando sonhamos sozinhos, é só um sonho, mas,
quando sonhamos juntos é o começo de uma nova realidade".
Esta realidade, que hoje, na Universidade de São Paulo, com sua plena significação, se
apresenta perante o Brasil. O objetivo desta homenagem é lembrar que, como Chiara Lubich,
todos nós desejamos fazer da humanidade uma grande familia, em que todos se tratem como
irmãos.
(02-03-2002) |